Algumas palavras da minha visão sobre o Estudo de Escalas e Arpejos
Olá amigos, alunos, músicos profissionais e pessoas interessadas sobre o assunto estudar escalas e arpejos, esse assunto que por incrível que se pareça ou mesmo por tão lógico que ele seja para quem estuda e quem é profissional, existe preconceito, há estudantes e até mesmo profissionais que riem, fazem piada com aqueles que se debruçam em algum momento no estudo de escala
Sou professor de saxofone da Escola de Música Villa-Lobos (no complexo Casa da Cultura Fausto Rocha Jr.), situada em Joinville – SC, que dispõe de uma estrutura física e pedagógica magnífica. Assim, é sempre necessário, ao longo do tempo, o aperfeiçoamento das estruturas físicas e pedagógicas. Tivemos um debate nas reuniões do colegiado sobre Escalas e Arpejos nas provas de ingresso; naturalmente, houve divergências. Dessa forma, para compreender a ideia das Escalas e Arpejos nas provas de ingresso, parti para uma pesquisa sobre o tema. Foi assim que gerei essa reflexão e, posteriormente, apresentei a ela o texto que me embasou e me inspirou.
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Uma prática vital...
Para o saxofone, e creio que para todos os instrumentos de sopro, esta prática é fundamental; mais do que isso, posso dizer com toda convicção e experiência performática e didática que ela é vital, indispensável na rotina de estudos, pois, com ela, além do equilíbrio de digitação, tem-se o benefício da regularidade do sopro e da sincronia da língua/dedo (articulações), mas cuidado: não é simplesmente ficar estudando escalas todos os dias!!!
É imprescindível para iniciantes ter uma orientação de um educador profissional do seu instrumento – não se iluda com profissionais que tocam bem, pois muitas vezes eles não tem a dimensão educacional/pedagógica, não que eles queiram lhe prejudicar, mas muitas vezes eles fazem o que fazem sem saber como o fazem –, pois ao meu ver em algum momento da vida de estudante o aluno deve ter feito todas as escalas de Dó M natural e sua relativa menor Lá m à Dó# M e sua relativa menor, Lá# m, bem como a de Fá M e Ré m à Dób M e Láb menor, em graus conjuntos, 3as, 4as, 5as, 6as, 7as, 8as e os arpejos de todas essas tonalidades.
Assim, além do desenvolvimento técnico propriamente dito, há um efeito cognitivo muito importante, muito semelhante ao de quem estuda intensamente matemática. Dessa forma o aluno terá um desenvolvimento físico (biológico), técnico e mental (cognitivo e psicológico) de forma que o carregará para toda sua carreira, ou para aqueles que não se tornarão profissionais terá uma condição necessária para desenvolver seu fazer musical de forma satisfatória e não frustrante como relatam muitos alunos que depois de 3, 4, 5 anos de estudo me procuram e relatam o que gostariam de fazer e não conseguem por não terem tido uma orientação correta.
Profissionais
Para os profissionais, é claro que o estudo de escalas é diferenciado. O estudo da escala cromática deve ser rotineiro; é indispensável na rotina diária de todos, mas cuidado: é um estudo de 2 a 3 minutos, nada intenso, e sim uma manutenção.
Estudar escala e arpejo propriamente ditos se destina ao meu ver associado a uma obra/peça a qual esteja sendo preparada, seja clássica ou popular, pois é claro que após este profissional ter feito toda a rotina de estudos de escala mencionado nesse texto anteriormente o mesmo somente terá que utilizar essas escalas como um ambiente controlado para apurar e analisar sua técnica, que será aplicada na obra/peça, assim sendo a escala e arpejos deve ser relacionadas ao objetivo final obra/peça.
Um ambiente controlado
Ao mostrar esse artigo à professora Ester Bencke, colega na Escola de Música em Joinville - SC, ela me cobrou uma explicação que eu havia feito de forma informal sobre o "ambiente controlado"; assim, acrescentei esse tópico.
Como já havia mencionado anteriormente, o termo "ambiente controlado" parece complexo para uns e simples para outros. Vou destrinchar isso brevemente.
Quando pensamos no conceito de ambiente controlado, isso nos remete a termos e conceitos biológicos, compreendendo-se como um local, sala, estufa, enfim, ambiente onde podemos controlar temperatura, umidade, proliferação e geração de fungos, micro-organismos etc. Dentro do pensamento científico, seria um local onde poderíamos controlar tudo para que o experimento se realizasse sem interferência externa.
A partir dessa definição e compreensão, podemos remeter-na a inúmeras situações. Nessa análise, estaremos focados na escala e no arpejo musical.
Como a Escala é um ambiente controlado? A partir do momento em que o músico, profissional ou mesmo estudante, se dedica a praticar, ela não se limita ao intuito de mexer os dedos. Simples assim?! É, você acreditava que a explicação deveria ser mais complexa e raciocinada. Pois bem, sim, ela pode abordar várias complexidades, e farei uma análise um pouco mais profunda para saciá-la. Porém, guarde bem essa frase da resposta, pois, ao final, perceberá que ela já lhe mostra tudo o que precisa.
A escala, ao ser repetida várias vezes, serve unicamente para ajustar, ordenar, regularizar e organizar os dedos; isso, primeiramente, para um entendimento simples. Porém, assim que esses primeiros fatores, que são importantes, sim, e realmente devem ser os primeiros a serem abordados, forem sanados, a Escala se torna um ambiente controlado. Como assim? Um local onde o estudo pode ser observado de fora para dentro e de dentro para fora, onde o músico pode se observar, pois há controle do tamanho na execução dessa escala, que ele pode utilizar como local para analisar inúmeros aspectos da sua técnica. Isso pode ser aplicado a todos os instrumentos e, assim, cada instrumentista pode estabelecer o paralelo que lhe caiba com os exemplos que menciono.
O saxofonista nesse caso quando falamos de observação externa pode se descolar do corpo e se observar quanto a postura, embocadura, expressão física, movimento corporal, movimento do instrumento e quando falamos interno pode identificar anomalias ou com está utilizando o fluxo do ar, pressão do ar, movimento da laringe, da prega vocal, movimento da língua, posição da língua, velocidade da língua, ponto de toque da língua com a palheta, movimento abdominal, resistência abdominal, capacidade de armazenamento de ar juntamente com diferentes utilizações de quantidade desse ar nas dinâmica, sincronia do dedo com a língua, pressão de ar diferente para as diferentes regiões do instrumento trazendo o equilíbrio na sonoridade, resistência labial, trabalho labial para influenciar o timbre, trabalho labial juntamente com a pressão do ar para obter outras sonoridades e podemos seguir com essa lista de experimentações nesse ambiente controlado chamado Escala, pois a partir do momento que dominamos essa Escala podemos colocar ela a serviço de todos esses itens para o seu desenvolvimento e mais que isso para a libertação mental do músico. Assim sendo, torno a invocar a resposta primária à questão: Como a Escala é um ambiente controlado? A partir do
momento em que o músico, profissional ou mesmo estudante, se dedica a praticar, ela não se limita ao intuito de mexer os dedos.
Sobre o texto que você lerá a seguir
Como já citado anteriormente no início da minha reflexão apresento o texto a seguir, pelo motivo óbvio de mostrar a todos que se interessam por esse estudo, provando que vocês estão sim no caminho correto e para aqueles que de repente não entendiam a função, o fundamento do Estudo de Escalas e Arpejos possam colocar esta ideia como um ponto à se pensar e passem a ao menos cogitar ter essa prática em seus estudos diário.
* Espero ter ajudado a esclarecer, de forma objetiva, o Estudo de Escalas e Arpejos. Leia agora o texto que me impulsionou a desenvolver esse momento de reflexão e a sistematizar o que, ao longo dos anos, já pensava, mas não tinha tido a oportunidade de formular.
Por que eu iria gastar mais tempo praticando escalas se eu pudesse fazer tudo de novo...
Como todo bom aluno, eu respeitosamente (embora com relutância) praticava minhas escalas desde muito cedo.
Claro que, quando já era maduro o suficiente para praticar escalas sem supervisão, eu evitava quando podia. É como tomar vitaminas: era algo que eu sabia que seria bom para mim, mas não tinha certeza exatamente do porquê.
Não compreendi até os meus 20 anos, quando a luz se acendeu e eu descobri por que eu deveria ter seguido praticando as escalas por todo esse tempo com mais seriedade.
Então, por que as escalas e os estudos têm tanto valor em nosso tempo dedicado ao instrumento?
Uau…
Em um verão há muitos anos, passei algumas semanas em uma oficina de música de câmara, na qual a violoncelista Natalia Gutman foi uma das professoras.
Ela realizou uma masterclass para os violoncelistas e, em um momento, fez algo que todos nós simplesmente sorrimos e balançamos a cabeça com admiração.
- O que foi isso?
- Ela interpretou uma escala.
Ascendente , descendente, arpejos, uma nota por arcada, oito, dezesseis. Eu acho que ela ainda tocou toda a escala (ascendente e descendente) em apenas uma arcada.
Qualquer um pode tocar uma escala. Mas, para tocar com esse tipo de facilidade e sem esforço, ela demonstrou tamanha distribuição dos sons e precisão orgânica, com fluência no arco, controle, uniformidade, suavidade, para não mencionar um som puro, voltas (retornos) limpas e entonação... respiração...
Ela nos deixou sem palavras.
As escalas podem ser a sequência mais básica de sons que os músicos tocam, mas observar o domínio de um grande artista sobre os fundamentos foi verdadeiramente fascinante. Ocorreu-me, naquela ocasião, que talvez eu pudesse tocar uma peça de Paganini, os Caprichos, mas não podia chegar perto desse tipo de execução em uma escala. Por mais que eu quisesse descartar a importância das escalas naquele momento, finalmente percebi por que elas eram tão importantes e valiosas.
Por quê escalas?
Ocorreu-me que as escalas não se limitam a indicar as notas no tempo. Elas são um campo de testes. Um laboratório ideal, ou ambiente controlado, para desenvolver os blocos de construção fundamentais da nossa técnica: mudanças suaves, velocidade, ponto de contato, distribuição das notas e da sonoridade, qualidade e conceito de som e muito, muito mais.
É uma oportunidade de despir as dezenas de outras variáveis que, de outra forma, ocorrem em uma peça de música e concentrar-se em dominar apenas um aspecto da nossa técnica de forma isolada. Em seguida, adicionando outros um de cada vez, para ver como isso muda as coisas. Para que possamos ajustar e experimentar com os pequenos detalhes minúsculos e verdadeiramente dominar os fundamentos.
Mais ou menos como a forma como algumas pessoas, hoje em dia, recomendam ensinar as crianças a andar de bicicleta, tirando os pedais, para que a criança possa trabalhar os jogos de equilíbrio em seu desenvolvimento. Então, quando elas desenvolvem esse equilíbrio, colocam-se os pedais de volta para que elas possam trabalhar em manter esse equilíbrio enquanto pedalam. (obs. Essa orientação faz parte de uma ideia holandesa de desenvolvimento no andar de bicicleta; os costumes culturais brasileiros são diferentes e permeiam a ideia de colocar rodinhas a mais para a criança aprender a pedalar e, posteriormente, se equilibrar, invertendo, assim, a lógica desenvolvida na Holanda – nota minha, Éverton Backes.
Se quem estuda está experimentando a pressão do dedo, o ponto de contato ou quanto de crina para usar, isso o faz focar menos em tocar a escala perfeitamente e mais em explorar, testar hipóteses e construir um arsenal de habilidades fundamentais que podemos, em seguida, aplicar a qualquer combinação única de demandas que encontrarmos no nosso repertório.
São fundamentos chatos? À primeira vista, talvez, mas é possível ser verdadeiramente grande sem uma sólida compreensão dos fundamentos?
O "Grande
Fundamento"
No caso em questão, Tim Duncan é frequentemente referido como um dos jogadores mais "chatos" da NBA. Mas com cinco campeonatos, 14 jogos All-Star, vários prêmios de MVP e muito mais, ele é, sem dúvida, um dos maiores jogadores de todos os tempos.
Apelidado de "O Grande Fundamento" por Shaquille O'Neal, ele também é amplamente considerado um dos jogadores mais fundamentalmente sólidos da liga — uma característica definidora de seu jogo, que muitos atribuem ao seu sucesso invejável, e isso se manteve ao longo de 17 anos de carreira.
Como o ditado "o céu está nos detalhes", que são as pequenas coisas que não aparecem individualmente, mas se somam ao longo de um jogo, de uma temporada e de uma série de playoffs, que muitas vezes são a diferença entre ganhar e perder.
O teste do ovo
Sempre que meus pais iam a um novo restaurante japonês, minha mãe encomendava um prato de ovo — normalmente o tamagoyaki ou o sushi tamago.
Ela disse que este foi o teste de um bom chef e que você, muitas vezes, pode dizer se um restaurante é de alto nível com base neste prato.
Eu sempre provei os ovos doces nessas ocasiões, pois eram gostosos para mim. Assim, eu seguia a ideia dela, mas parece que isso é verdade — não apenas algo que minha mãe fazia.
Um grande chef, Wolfgang Puck, foi convidado a testar chefs com o "teste de ovo", sabendo que eles eram capazes de preparar pratos sofisticados com ingredientes exóticos em nível elevado; porém, sua análise se baseou em se eles seriam desarmados por um simples ovo, ao negligenciar os fundamentos básicos da culinária.
Há também a cena comovente no filme Jiro Dreams of Sushi, em que um aprendiz passa meses tentando, inúmeras vezes, cozinhar ovos para a satisfação do mestre. Como ele levou, talvez, mais de 200 tentativas para obter apenas a maneira certa.
Tome uma atitude!
Então… pensando nesse tema, você pode passar pelo teste do ovo em seu instrumento? Ou seja, você passaria no teste de escalas?
O que seria necessário para passar com honrarias?
O resumo em uma frase
"O que as pessoas não percebem é que os profissionais são sensacionais graças aos fundamentos." ~ 12 vezes MLB All-Star de 1995, MVP e, em 1990, Campeão da World Series, shortstop Barry Larkin.